Machado de Assis, 180 anos

O Rio de Janeiro de Machado de Assis e O Machado de Assis do Rio de Janeiro.

Em celebração aos 180 anos do Bruxo do Cosme Velho, o Hiperliteratura propõe um tour virtual por alguns dos cenários cariocas retratados por Machado de Assis em suas obras. Venha passear com a gente.

Machado de Assis do Rio de Janeiro.
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Há exatos 180 anos, nascia, em uma chácara do morro do Livramento, no Centro do Rio de Janeiro, um dos maiores patrimônios dessa cidade: Joaquim Maria Machado de Assis. Com efeito e perfeição, Machado gostava de caracterizar nela, os cenários de suas narrativas. Poucos, como ele, tiveram essa preocupação paciente de fixar o espaço. O tempo talvez não lhe tivesse tanta importância.

Morro do Livramento (anos 1920). Onde nasceu e se criou o menino Machado de Assis.

Por um instinto visionário de que sua obra transcenderia, ele não se perturbou ao mistério de um julgamento da posteridade. O Rio de Janeiro ficou caracterizado suficientemente em sua obra, ainda que o regionalismo de Machado é mais discutível do que o de Manuel Antônio de Almeida, por exemplo.

Assim, Machado de Assis foi um escritor da terra carioca, de um Rio que ele amou tanto que não pode deixar de assinalar, em sua obra, os nomes das ruas, das praças, dos bairros por onde seus personagens transitaram.

Isso lhe interessava mais por uma questão de fidelidade à descrição, ou seja, mais como processo de composição.

Ele não penetrou suficientemente no Rio de seu tempo, por isso, não é um romancista de costumes, como o foi José de Alencar, por exemplo. Machado foi um romancista da psicologia da sociedade de determinado tempo ou, se vocês preferirem, de uma determinada sociedade.

Seus personagens moravam em Botafogo, Laranjeiras, Engenho Novo, na Lapa. Santa Tereza com suas ruas tortas, lembrando uma cidade que se construísse como exemplo de que o urbanismo é mais ciência que arte, também assistiu a várias cenas de seus homens e mulheres.

Uma ladeira de acesso à rua Almirante Alexandrino ainda guarda os passos de Iaiá Garcia e o cavernoso pigarro do velho Félix.

O Catumbi ainda recorda, nos seus aspectos mais pitorescos, morros, chácaras e quintais, a mesma doçura poética dos tempos antigos em que expirou por lá, um certo Brás Cubas, com seus tílburis, fazendo turismos suspeitos com as viúvas dos contos de Machado.

Rubião, de pijama, ainda contempla das varandas coloniais os mesmos crepúsculos líricos de Botafogo. A novidade de hoje é o progresso da Urca, com suas casas e apartamentos verticalizando a paisagem, que antigamente era plana.

A Lapa de ontem reunia marinheiros que desembarcavam no Cais Pharoux, onde Machado, certa vez, teve um ataque epilético. Ali, o mulato costumava se sentar nos bancos para observar gestos, conversas e roupas dos que passavam.

Dom Casmurro que Machado conheceria em um trem da Central, “conhecer de chapéu”, conforme sua expressão, devia andar por alí também.

No morro do Livramento, onde nasceu e morou na infância, mais tarde, ergueu-se as redações de revistas e jornais.

A rua do Lavradio, a rua das Marrecas (talvez nela, não haja mais casas de cartomantes, os tempos são outros, os videntes também).

No Passeio Público, muito mudado nos últimos anos, as pessoas continuam a passar de lá pra cá, marcam-se encontros para se tomar café, bebida aliás que Machado adorava.

O Rio de hoje que, ontem, foi do Rio de Machado, as fotografias que estampamos nos celulares, nos mapas do Google, dão bem a ideia do confronto que procuramos estabelecer rapidamente. De qualquer modo, queremos acentuar que o Rio foi de Machado, mas Machado também foi um escritor do Rio.

Como escritor, Manoel Antônio de Almeida (ou mesmo Lima Barreto) talvez tenha sido mais “carioca”. Mas, Machado de Assis, ao fixar os nomes de certos lugares da nossa cidade, também prestou um serviço excepcional à memória do Rio de Janeiro.