CuriosidadesMachado de Assis, 180 anos

O Gatinho Preto de Machado de Assis

Aqui, relatamos um episódio caseiro, mas muito interessante, ocorrido no sobrado da rua Cosme Velho, número 18, onde viveu Machado de Assis e um certo gatinho preto.

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Em 8 de agosto, celebra-se o Dia Internacional do Gato. Ainda não é agosto, mas, não me custa antecipar essa curiosidade “literária” que tem como tema os felinos.

Em uma das primeiras biografias de fôlego de Machado de Assis, Lúcia Miguel Pereira concluiu:

“Esse homem tão recatado, tão cioso da sua intimidade, só teve um descuido, só deixou uma porta aberta: os seus livros. São eles que nos revelam o verdadeiro Machado de Assis”.

Lúcia estava, digamos, “quase” certa.

O acanhado Machado de Assis deixou pelo menos uma outra “fresta”, por onde olhos curiosos poderão vislumbrar agora um episódio caseiro do famoso sobrado na rua do Cosme Velho, 18, onde o bruxo morou por vários anos, até sua morte.

A fresta é uma carta dirigida a Alba, uma menina a quem Machado dedicava grande amor; amor de avô sem netos.

Carta de Machado de Assis à menina Alba.

Alba presenteou Machado, já viúvo, com um gatinho preto. Machado, então, escreveu à menina agradecendo o presente, mas quem assina a carta não é Machado, mas o gatinho preto….

Segue, abaixo, a transcrição da carta.

Quinta-feira.

D. Alba,

Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez dando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe com medo e metia-me pelos cantos ou em baixo dos aparadores. No segundo dia já me aproximava, mas ainda cauteloso.

Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e as costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas espero que chegue até lá. Só não consente que eu trepe á mesa quando ele almoça ou janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama.

A minha vida é alegre. Bebo Leite, caldo de feijão e de sopa, como arroz, e já provei alguns pedaços de carne. A carne é boa, não creio, porém, que valha a de camondongo, mas camondongo é que não há aqui, por mais que os procure. Creio que desconfiaram que há mouro na costa, e fugiram.

Quando virá ver-me? Eu não me canso de ouvir ao Machado que a senhora é muito bonita, muito meiga, muito graciosa, o encanto de seus pais.

E seus pais — como vão? Já terão descido de Petrópolis? Dê-lhes lembranças minhas, e não esqueça este jovem.

gatinho preto