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Bisbilhotando a Biblioteca do Major Policarpo Quaresma

Há 138 anos nascia no bairro das Laranjeiras, aquele que se tornaria o romancista dos subúrbios cariocas, Lima Barreto. Neste artigo, vamos bisbilhotar a biblioteca de Policarpo Quaresma, um dos seus principais personagens. Muitos dos livros que lá estão, também estiveram nas prateleiras da "Limana", biblioteca do escritor carioca.

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RIO — Em seu diário, Lima Barreto anotou: “O Policarpo Quaresma apareceu em 26 de fevereiro de 1916”. Este ano, portanto, a obra completou 103 anos. O Triste Fim de Policarpo Quaresma (livro 39 dos Clássicos Hiperliteratura) é livro de modernista, não de pré-modernista: romance “desmontável”, com uma narrativa “em blocos”. Além disso, o romance foi autopublicado.

Leitores não devem (à maneira do deprimido e trágico farmacêutico do conto A biblioteca) ser “alheados do que é verdadeiramente a substância dos livros – o pensamento, a absorção da pessoal humana neles”.  Os leitores devem exercitar perspicácia e criatividade. O bom leitor, sabemos, não é aquele que se identifica com os personagens, mas com seus autores.

Lima Barreto além de grande escritor, foi também um grande leitor, um leitor criativo que com frequência trouxe para dentro de sua obra os seus “inimigos íntimos” (os autores que leu) e suas bibliografias. Em sua obra, não foram poucas as vezes, que ele menciona autores e livros de sua biblioteca particular.

No trecho a seguir, uma descrição da biblioteca do major Policarpo. A obra de Lima Barreta era muito autobiográfica. Pode-se então sugerir (como de fato muitos estudiosos sugerem) que a biblioteca de Policarpo Quaresma seja um espelho da outra, a “Limana”, biblioteca pessoal de Lima Barreto, que um dia, em algum lugar do passado, era localizada na rua Major Mascarenha, 32, no bairro de Todos os Santos, Rio de Janeiro, há pouco metros de onde hoje se localiza o NorteShopping.

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“Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopeia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo de Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.”

— Lima Barreto —  trecho de Triste Fim de Policarpo Quaresma, livro 39 da coleção Clássicos Hiperliteratura.

Cláudio Soares
Escritor, jornalista e editor do portal Hiperliteratura.