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Machado de Assis e o Café

Machado abusava do café a tal ponto, que um amigo seu, o escritor Mário de Alencar, sempre lhe recomendava moderação no café.

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Desde os etíopes e os abissínios, o café era aproveitado para beberragens. Dos africanos, seu uso passou para os persas, depois para os árabes, que disseminaram, a partir do séc. XV, como um maravilhoso estimulante para vencer sono e fadiga. O café então se espalhou pelo mundo inteiro: Meca, Egito, Constantinopla. No século XVII, se transformou em da moda em Londres e Paris. Coube ao brasileiro Francisco de Mello Palheta, o mérito de transportar da Guiana Francesa para nossa terra as primeiras sementes do cafeeiro.

Sabe-se que Machado de Assis foi um compulsivo bebedor de café. O leitor menos desmemoriado irá se recordar, até, de alguma das várias passagens da prosa do escritor em que o café é lembrado. Trechos como “Recebeu a xícara de café, que o escravo lhe trouxe daí a pouco, acendeu um charuto e abriu o livro”, de A mão e a luva, ou ainda “O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la”, do Dom Casmurro.

De fato, Machado abusava do café. A tal ponto, que um amigo seu, o escritor Mário de Alencar (1872-1925), filho do escritor José de Alencar (1829-1877), sempre recomendava a Machado moderação no café.

Sabe-se também que Machado foi, desde os seus 27 anos, funcionário público. Em 8 de abril de 1867, foi nomeado como “ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial”, então subordinado ao Ministério da Fazenda. Atuaria no serviço público até a sua morte, em 1908, aos 69 anos, quando exercia o cargo de diretor-geral de Contabilidade, do Ministério da Viação.

Quem conta a história a seguir é o Artur Azevedo (1855-1908), dramaturgo, que foi também funcionário público, como Machado de Assis, tendo, inclusive, trabalhado no mesmo Ministério do autor de Dom Casmurro.

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O dramaturgo (e funcionário público) Artur Azevedo

Certa vez, no gabinete do diretor geral da Contabilidade na Secretaria da Indústria, Machado de Assis recebeu um sujeito que, lhe pedindo licença, entrou, sentou-se e disse: “Sr. Diretor, requeri há dias um pagamento no Ministério. O requerimento subiu informado, e está nas mãos de vossa senhoria”. E indicando um papel sobre a mesa, disse: “Olhe, é este”.

erta vez, no gabinete do diretor geral da Contabilidade na Secretaria da Indústria, Machado de Assis recebeu um sujeito que, lhe pedindo licença, entrou, sentou-se e disse: “Sr. Diretor, requeri há dias um pagamento no Ministério. O requerimento subiu informado, e está nas mãos de vossa senhoria”. E indicando um papel sobre a mesa, disse: “Olhe, é este”.

No que Machado pergunta: “Certo, mas o que o senhor deseja?”

O homem: “Vim pedir a vossa senhoria que o faça subir hoje ao gabinete”.

Machado de Assis: “Hoje não pode ser. Ainda não o examinei, e quero examiná-lo com atenção. Só amanhã subirá”.

O sujeito: “Amanhã é domingo”.

Machado: “Nesse caso, será depois de amanhã. Desculpe. Preciso estar só. Tenho ainda muito que fazer”.

O sujeito: “Quero ainda fazer outro pedido a vossa senhoria, mas este em nome de minha filha”.

Machado: “Diga depressa”.

O sujeito: “Ela ouviu dizer que vossa senhoria é poeta, e manda pedir-lhe que escreva alguma coisa no seu álbum”.

Machado de Assis: “Já não escrevo em álbuns, meu caro senhor, e demais este lugar é impróprio; não se tratam aqui de tais assuntos”.

Machado então já estende a mão para se despedir do homem, quando entra um servente com uma bandeja de café. Machado oferece uma xícara ao visitante: “É servido?”

O homem. gentilmente, recusa dizendo: “Não senhor, não tomo café, porque é um veneno, e peço-lhe que faça como eu: não o tome também”.

Machado de Assis devolvendo a xícara à bandeja responde: “Pois não! É o seu terceiro pedido desde que aqui está. A este ao menos posso satisfazer. Hoje, não tomo café!”.


Essa anedota contada por Artur Azevedo, infelizmente, foi a sua antepenúltima colaboração no jornal. Um mês após a morte de Machado, Artur Azevedo também desapareceria.


Referências:

  • Jornal O Século, coluna “Teatro a vapor”.
  • A civilização do café (1820-1920), Alves Mota Sobrinho.
  • “Machado de Assis, funcionário público”. Raymundo Magalhães Junior.