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5 Reações Agressivas da Crítica ao Lançamento de ‘Bom-Crioulo’ em 1895

Além da repulsa praticamente unânime da crítica literária em seu lançamento, sete décadas depois, o romance também seria censurado pelo militar.

80 palavras mais frequentes no romance
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Ao abordar frontalmente o tema da homossexualidade (quando esta palavra sequer fora dicionarizada), o romance de Adolfo Caminha causou a indignação da crítica literária da época, não somente pelo inusitado da história, mas também pelo fato de ser ela extremamente bem escrita. Mais que outros livros definidos como naturalistas, Bom-Crioulo, deflagrou um escândalo só comparável ao alcançado na mesma época por A Carne, de Julio Ribeiro, que no entanto ficou mais conhecida e popularizada antes mais por seus defeitos de execução do que pelas qualidades literárias.

Bom-Crioulo, publicado em dezembro de 1895, é considerado um dos primeiros romances sobre homossexualidade masculina da história de toda a literatura ocidental. Considerado um romance polêmico, causou indignação pela crítica literária da época, devido à ousadia de abordagem de temas tabu, como o sexo inter-racial e a homossexualidade em ambiente militar, com uma frontalidade e erotismo pouco usuais para a época.

5 reações agressivas da crítica ao lançamento do romance

1) O teatrólogo Artur Azevedo, em sua coluna “Palestra”, no jornal O Paiz, vociferou:

Bom-Crioulo, o ultimo livro de Adolfo Caminha, foi um erro de que só o absolveria outro romance naturalmente já planejado e talvez escrito. Não obstante algumas paginas bem coloridas, causou-me náuseas esse estudo grosseiro da pederastia. Nem o gênio de um Flaubert poderia tornar aceitável tao repugnantes assunto. Releva dizer que Adolfo Caminha – eu faço esta justiça ao seu caráter – não quis, como disse alguém, armar ao escândalo, escrevendo um livro pornográfico. Ele observou de perto o que descreveu, e imaginou sinceramente que a depravação de um marinheiro estupido lhe deparasse ocasião de fazer uma bonita analise psicológica. Mas uma boa intenção que foi ladrilhar o inferno!”

2) A coluna ‘Semana Literária’, de Valentim Magalhães, publicada no jornal A Notícia (RJ), foi uma das que mais atacaram o romance…

Encontro-me grandemente embaraçado para tratar de Bom-Crioulo, o último romance do Sr. Adolfo Caminha, que foi o livro da semana. E vou lhes dizer por que. Eu só teria dois meios de tratar deste livro: ou arrasá-lo com a descompostura mais severa, mais indignada, mais flamivina que jamais se tenha desencadeado contra um livro, imundo, ou escrever simplesmente as duas ou três linhas seguintes: ‘Do livro Bom-Crioulo, do Sr. Adolfo Caminha, nada direi, por julga-lo indigno de que com ele se ocupe uma pena honrada’.

3) Magalhães afirmou também…

Ora o Bom Crioulo excede tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo.

4) E o atacou frontalmente no que talvez tenha sido o seu maior destaque histórico…

É um livro asqueroso, porque explora – primeiro a fazê-lo, que eu saiba – um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por anti-natural, por ignóbil. Não é portanto um livro faisandé; é um livro poder; é o romance vômito, o romance-poia, o romance-pus.

5) Na Cidade do Rio, Alves de Faria escreveu:

Nesta semana houve um livro publicado. É de Adolfo Caminha e se chama Bom-Crioulo. Filia-se ao naturalismo, tem um entrecho bem arranjado, mas não é uma evolução do autor da Normalista. Perdoe-me ele essa frase sincera.

Primeiro romance brasileiro a trazer um negro como protagonista

  • Em 1995, um artigo do jornal carioca O Globo, por ocasião do centenário do romance, chamou o livro de “percursor de ‘Querelle’, livro de Jean Genet”, além de lembrar que ele foi o primeiro romance brasileiro a ter um negro como protagonista.
  • O professor David Willian Foster, da Arizona State University, no mesmo ano, escreveu que o romance provavelmente era o primeiro testemunho da representação da homossexualidade, romanceado, explicito e publico na literatura ocidental.
  • Lucia Miguel Pereira, em 1959, havia considerado Bom-Crioulo, um dos pontos mais altos do naturalismo brasileiro, ao lado do Cortiço de Aluísio Azevedo.

Breve biografia do romance

Bom Crioulo, se tornou um romance ‘cult’. Sua trama aborda conta a historia do romance entre o marinheiro negro Amaro, apelidado ‘Bom-Crioulo’, e o grumete Aleixo, um lourinho de 15 anos, de Santa Catarina.

No limbo, por 40 anos, o livro foi ressuscitado por J. Fagundes, em 1936, com uma segunda edição. Seguiu-se uma outra, em 1956, e mais outra 27 anos depois.

Além da repulsa praticamente unânime da crítica literária em 1895, ano de lançamento do livro, sete décadas depois, o livro seria censurado durante o regime militar que se estabeleceu no Brasil em 1964.

Quem foi ‘Bom-Crioulo’?

O crítico Wilson Martins contou, certa vez, em sua coluna literária, que João Cândido Felisberto, ele mesmo, o histórico ‘almirante negro’, líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, teria sido a inspiração de Caminha para a criação do protagonista Amaro, o ‘Bom-Crioulo’.

Tendo sido oficial da Marinha, Adolfo Caminha certamente teve notícia de João Cândido, se é que não o tenha conhecido pessoalmente. “Cândido era célebre”, conclui Wilson Martins, “como conegaço, isto é, um marinheiro experiente que se impunha aos mais novos e subalternos, sobretudo aos grumetes, pela autoridade da experiência e pela força dos músculos”.

Alguns críticos viram no Bom-Crioulo, um ‘romance de costumes marítimos’, enquanto outros apontam que também se trata de uma crítica ao uso da chibata em navios de guerra.