Dossiê GSVResenhalista

23 Razões Por Que Todos Devem Ler (e Louvar) o Grande Sertão: Veredas

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Em julho de 2018, a editora Companhia das Letras anunciou em suas redes sociais que passaria a publicar o clássico de João Guimarães Rosa, o fabuloso e “endiabrado” Grande Sertão: Veredas, um divisor de águas na literatura brasileira.

A nova edição chegou às livrarias no dia 25 de fevereiro e já é o mais vendido na categoria Ficção Literária Literatura e Ficção da Amazon. Na foto que acompanha este artigo, vocês podem ver a capa, assinada por Alceu Chiesorin Nunes, inspirada no bordado do avesso do Manto da apresentação, de Arthur Bispo do Rosário, com a reprodução de nomes dos personagens do romance.

O escritor mineiro Paulo Mendes Campos (28/02/1922 — 01/07/1991)

Em 1956, ano em que o romance foi originalmente lançado com grande repercussão na imprensa nacional, o escritor Paulo Mendes Campos, conterrâneo de Rosa, escreveu na revista Manchete uma resenha, que depois, em 1970, foi transformada em lista.

É com esse texto do cronista mineiro que inauguramos a seção RESENHALISTA do Hiperliteratura, que vai apresentar, nesse formato tão popular da internet (as listas), análises bastante informais (e pessoais) de alguns dos principais lançamentos do nosso mercado editorial.

Segue a resenha ou, melhor, a resenhalista.

VEJA TAMBÉM: Um Hipergráfico do Grande Sertão: Veredas

Por Paulo Mendes Campos

  1. Porque este livro conta uma história que ainda não conhecíamos; que precisávamos ouvir; uma história que não é mais possível imaginar não existindo.
  2. Porque devemos escutar uma história ao amanhecer, outra ao meio-dia, outra à boca da noite.
  3. Porque há uma história no começo, outra no meio do mundo, outra no fim. E são os enredos do homem com a sua força e seu medo; os enredos da mulher com a sua fragilidade e a sua coragem.
  4. Porque este livro reproduz a parábola humana sobre a terra e nos molha no frescor das primiricas vegetações, até aclarar-nos e ofuscar-nos nas indagações da consciência acuada.
  5. Porque os homens são um único homem. E um único homem são todos os homens.
  6. Porque Riobaldo esteve no Egeu, no castelo que preparava a guerra santa, nas grandes revoluções libertárias, no sertão de Minas entre os jagunços, e Riobaldo está a teu lado.
  7. Porque a metafísica de Riobaldo percorre os tempos do mundo de ponta a ponta.
  8. Porque Riobaldo é a ação que se contempla e o pensamento que sai armado cavaleiro.
  9. Porque a invenção deste livro é constante como os movimentos da natureza e as desarticulãções do pensamento nessa reciprocidade que faz o homem patético perante as vagas e inelutável perante a órbita das estrelas.
  10. Porque filosofar é a solidão energética do homem anônimo e, através da solidão, o anônimo comunga na religião universal.
  11. Porque só o exercício do sofrimento pode abrir esperança às ideias de Riobaldo. E as ideias dele vão, perdidas e achadas, como um bando de criaturas rudes através do sertão.
  12. Porque esta obra de arte, doada como um fruto, indo não sei onde, onde a levar de leve ou de força o espírito, tem a armação matemática com que se desenhou a harmonia do tempo em louvor do espírito sem forma, além das operações aritméticas.
  13. Porque sempre acima da sintaxe estruturada há de bater o vendo do espírito – para que as contradições do destino se realizem.
  14. Porque todas as partes deste livro cooperam entre si e se empolgam mutuamente e aspiram a um fim.
  15. Porque todos os hipérbatos, anástrofes, metonímias, cooperam entre si e se empolgam e aspiram a um fim. E o fim a que aspiram é o entendimento e a denúncia dos homens; para que estes não continuem matéria de escândalo, mas ponto de partida ao tempo e ao espaço comuns. E ainda porque neste livro se repetem as perplexidades das lendas e o bem-mal dos mais velhos testamentos.
  16. Porque ele quer todos os pastos demarcados.
  17. Porque este livro funciona em qualquer página, sendo composto de círculos concêntricos.
  18. Porque o ritmo é o comentário que faz o autor a suas palavras, suas orações, suas personalidades; e porque neste livo o comentário é de um movimento amplo e de uma vitalidade iniludível.
  19. Porque Riobaldo viveu, ouviu, cheirou, provou da terra, da pele, dos corações; pois se integrou na ambiciosa apreensão de seus sentidos, dando uma medida às especulações.
  20. Porque as regiões compõem o mundo e o definem, como o tecido celular define o órgão e sugere o organismo.
  21. Porque o pouco que sabemos este livro ordena e ensina. Porque o Brasil existe; os brasileiros existem.
  22. Porque seguimos através do grande sertão e aos poucos nos distinguimos no lusco-fusco do mato.
  23. Porque nós releremos para sempre um livro como este: eu o louvo com modéstia e espanto.


Quem foi Paulo Mendes Campos?
O mineiro Paulo Mendes Campos foi poeta, tradutor e cronista refinado. Criado com nove irmãos em ambiente familiar de poliglotas e anglófonos, foi a mãe quem lhe despertou o gosto pela poesia. Em 1937, conheceu o adolescente de mesma idade Otto Lara Resende, em São João del-Rey, que seria seu amigo de toda a vida. No ano seguinte, em Belo Horizonte, onde passou a morar, os dois rapazes juntaram-se a Fernando Sabino e Hélio Pellegrino: formava-se o lendário quarteto que Otto batizaria de “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”.