Biografia do livroO Cortiço Anotado

O Cortiço, 130 anos — 10 curiosidades sobre a obra-prima de Aluísio Azevedo

Há 130 anos era lançado O Cortiço, obra-prima de Aluísio Azevedo. O romance, considerado um dos maiores do movimento naturalista brasileiro, é também um dos principais libelos antiescravagistas da nossa literatura e a “grande reportagem” do início do proletariado carioca.

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1. Vivendo em um cortiço

Para a preparação do romance, Aluísio Azevedo (1857-1913) começou muito cedo a coletar sua documentação, segundo o jornalista gaúcho Pardal Mallet (1864-1894):

Os primeiros apontamentos para O Cortiço foram coletados em minha companhia, em 1884, numas excursões para “estudar costumes”, nas quais saímos disfarçados com vestimenta popular: tamanco sem meia, velhas calças de zuarte remendadas, camisas de meia rotas nos cotovelos, chapéus forrados e cachimbos no canto da boca.

Em uma entrevista ao jornal O Globo em 1957, o escritor Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981) deu mais detalhes desse “trabalho investigativo” de Aluísio Azevedo:

Para escrever O Cortiço, Aluísio alugou um quarto em uma dessas casas e nela passou a viver e a colher elementos da gente que ali vivia. Para isso, vestiu roupas velhas e sapatos furados. Tudo ia bem. O escritor já se considerava vitorioso no seu empenho. Como, porém, fazia muitas perguntas, às vezes puxando papeizinhos para tomar notas, gerou-se logo a suspeita de que se trata-se de um agente da polícia disfarçado, e ele teve que abandonar, imediatamente, o cortiço para fugir às navalhadas de um famoso capoeira.

2. Como Aluísio Azevedo escrevia

A grande vocação de Aluísio Azevedo não era a literatura, mas a pintura. Todos que os conheceram, deixaram testemunhos de como ele desenhava com muita habilidade. Contrariado no legítimo desejo de estuar aquela arte, o seu talento desviou-se para as letras. Aluísio escreveu o que não pode pintar. Os capítulos dos seus romances seriam quadros se lhe metessem na mão o pincel com que ele sonhava. Sai o vidor das suas paisagens e cenários, o colorido intenso de suas descrições, o contorno detalhado dos seus personagens, que ele desenhava, pintava, colava em papelão e recortava, para depois colocá-los sobre a sua escrivaninha, como se estivessem encenando uns com os outros, para serem observados enquanto o autor escrevia suas cenas.

Segundo o crítico literário Afrânio Peixoto (1876-1947), Aluísio ficava ligado a esses bonecos de papelão a ponto de coelcioná-los:

Alguns desses filhos queridos de sua concreta imaginação, o tal Jerônimo, um deles, famoso e conhecido de todos os seus amigos, lhe devem ter sobrevivido pois que o conservou na gaveta entre os seus papeis.

3. Brasileiros antigos e modernos

Em outubro de 1885, Aluísio Azevedo anunciou o esboço de um projeto literário ousado nas páginas do periódico A Semana. Ele imaginou um retrato em cinco romances intitulados, no conjunto, Brasileiros antigos e modernos, que abarcariam a sociedade brasileira do Império, desde o seu nascimento até a sua ruína (que ele imaginava próxima). Os cinco livros se chamariam: O Cortiço, A família brasileira, O felizardo,  A loreira,  A bola preta. Deles, apenas o primeiro, justamente a sua obra-prima, seria lançado.

4. O Cortiço é um plágio?

Em uma artigo para a Revista do Livro, em 1957, o famoso crítico literário Brito Broca (1903-1961) relembra um artigo de Pardal Mallet (ele mesmo, que acompanhou Aluísio no seu “trabalho de campo” para escrever o romance) em que o jornalista gaúcho, criticando o romance, insinua que O Cortiço seria um plágio de A taberna (título original: L’Assommoir), romance do francês Émile Zola, publicado primeiro em livro no ano de 1877, ou seja, três anos antes de O Cortiço.

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Examinando ligeiramente alguns pontos de semelhança entre os dois romances apontados por Mallet, Brito Broca lista:

  • O “polícia” Alexandre, do Cortiço, e o sergent Poisson, do romance francês, aparecem como simples figurantes, não desempenhando propriamente nenhum papel, tendo como traço característico grande apuro e limpeza do vestuário, quando estão fardados e um bom humor complacente, quando estão sem a farda.
  • O velho Libório do romance brasileiro identifica-se com o père Bru, do francês, vivendo ambos por misericórdia no canto infecto de uma residência, ambos convidados para fazer número: o primeiro no jantar de Rita Baiana, o segundo no jantar de Gervaise. No entanto Pardal Mallet não teria observado que Aluísio fez do velho Libório um tipo antipático na sua miséria, por ser um monstruoso glutão. Além disso, Libório era um falso miserável (lendo o romance, você vai entender o que quero dizer).
  • A briga de Rita Baiana com Piedade lembra a briga de Gervaise e Virginie em A Taberna.
  • Outra cena semelhante é de Piedade, muito bêbada, com Pataca, espreitada pela filha, que recorda Gervaise com Lantier surpreendidos por Nana.

5. Precursor do marketing editorial no Brasil

Pode-se dizer que Aluísio Azevedo foi um precursor, sob diversos aspectos, do Marketing Editorial no Brasil. Além de ser considerado um dos primeiros escritores (talvez o primeiro) a viver de literatura no Brasil, sabia como ninguém usar o poder da sua “rede social” (sim, o seu “networking” ou “rede de contatos”) para criar e implementar estratégias de “buzz”, divulgar e vender seus livros.

Para o lançamento de O Homem, por exemplo, seu romance de 1887, o destemido Aluísio, com a ajuda de vários amigos, foi para as ruas distribuir panfletos anunciando o romance. Como resultado, no dia da primeira exposição do livro, foram vendidos no balcão uns 300 exemplares. Foi justamente a amplitude, a novidade e o sucesso de suas campanhas publicitárias (além da qualidade de seu texto) que o levariam à editora Garnier, a mais prestigiosa da época, que lançaria O Cortiço em 13 de maio de 1890.

Na foto acima, a Gazeta de Notícias anuncia a chegada próxima do livro de Aluísio. Vários trechos do romance foram publicados em jornais do Brasil inteiro e, segundo uma outra matéria da época, a primeira edição (1.000 exemplares) esgotou-se em poucos dias.

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6. A Estalagem, digo, O Cortiço

Aluísio usou no romance vários elementos autobiográficos. O uso deles nas obras de ficção não constituía, pelo menos para Aluísio Azevedo, novidade. Pegue-se como exemplo A condessa Vésper (Memórias de um condenado), de 1882, em que o autor já lançava mão desse recurso para esboçar no personagem Gustavo — um boêmio por necessidade, jornalista, escritor, desenhista — , as aventuras, a batalha, para se levar uma vida decente, que lembravam as do próprio Aluísio Azevedo.

Capa de A condessa Vésper ou Memórias de um condenado

O romancista chegou a fazer de Gustavo o porta-voz de seus próprios projetos literários. Leia esse trecho:

Enquanto D. Joana chamava pela negrinha que na casa representava o papel de copeiro, Gustavo sem se desfazer do chapéu e da bengala, dizia de si para si, a recordar-se das muitas vezes em que da janela do seu quarto ficava a contemplar a habitação do cortiço: deve ser aquela mulheraça gorda e azafamada que estava sempre a ralhar com as crianças e de quem copiei o tipo da Brigona no meu romance “A estalagem”.

Ora, o título desse suposto romance de Gustavo, A estalagem, não é outro senão o título inicial da obra publicada por Aluísio em 1890: O Cortiço. Pode-se mesmo, pela cena acima, lembrar-se de trechos em que o cortiço é observado de cima, das janelas do sobrado de Miranda. Vê-se, portanto, que quase uma década antes do lançamento do seu romance mais famoso, os problemas sociais tratados em O Cortiço já preocupavam Aluísio Azevedo.

7. No cortiço, bebia-se cerveja Carlsberg

De vez em quando, também se bebia uma Carlsberg na estalagem de São Romão…

“Daí a pouco, Augusta apresentou-lhe uma xícara de café, que Léonie recusou por não poder beber. ‘Estava em uso de remédios…’ Não disse, porém, quais eram estes, nem para que moléstia os tomava. ‘Prefiro um copo de cerveja, declarou ela’. E, sem dar tempo a que se opusessem, tirou da carteira uma nota de dez mil-réis, que deu a Agostinho para ir buscar três garrafas de Carls Berg”. [Capítulo 9].

8. 40+ personagens e suas relações

Mind Map com mais de 50 personagens que integram O Cortiço, incluindo o principal: o próprio cortiço São RomãoE o mapa ainda não está completo…

O Cortiço por Claudio Soares

9. O Cortiço em números e nuvem de tags

Todo livro tende a ser trabalhado como um “pequeno banco de dados”, que se comunica com outros bancos de dados, tornando-se um banco de dados ainda maior. Mas isso, Borges, há muitos anos, já teria avisado (com outras palavras). Se os números (de certa forma) se transformaram na própria narrativa do nosso tempo, O Cortiço poderá ser “lido” também como um conjunto de 79.516 palavras (média de 5 caracteres por palavra; 17.307 palavras “únicas”); ou 462.274 caracteres, ou 5.664 sentenças (média de 14 caracteres por sentença), ou 2.271 parágrafos. O “de” com suas 3459 ocorrências abocanha 4,3% da “densidade de palavras” no romance; e o “não”, com 1.117 ocorrências, 0,14%.

10. Três cenas do Cortiço nos traços do grande chargista Belmonte

Ilustrações do renomado ilustrador Belmonte (1896-1947) Publicados na revista Vamos Ler!, em abril, junho e agosto de 1942, respectivamente.

Cláudio Soares
Escritor, jornalista e editor do portal Hiperliteratura.